sábado, 25 de janeiro de 2014

#Praxes e Espírito Académico

Já lá vão os anos em que fiquei encostado a um poste a chorar ao ver os meus pais partir.
Era a primeira vez que me separaria mesmo deles, e por mais que eu quisesse a aventura, custa-me partir para o desconhecido.

Estava ainda eu ali, impávido e sereno e chega um rapaz da guarda, também caloiro, meio francês meio sabia lá o quê, cheio de tralhas. Abri-lhe a porta para o ajudar e fui para cima.

Subi para o meu quarto e pouco depois me bateram na porta. Eram Veteranos. Com mais matriculas que deviam, para ser honesto convosco, mas como devem saber... Veteranos especialmente com muitas matriculas metem medo, seja pelo mito urbano ou não. Metem medo. E eu, eu estava no território deles pois era o único caloiro no último piso, reservado apenas para Veteranos.

Sabia que a minha vida iria ser negra só pelo facto de estar ali "a mais". Ou assim pensava eu...

Bateram me há porta dois trinca espinhas de Engenharia Civil, curso que ainda por cima tinha Aquela rivalidade com Design, que era o meu. A primeira preocupação deles não foi intimidar-me, não foi praxar-me sequer. Foi saber quem eu era, de onde vinha e claro, porque raio tava no piso deles xD

Era o Flávio e o Marco, dois insulares que percebiam na perfeição o que era estar longe de casa. Um deles estava ha tanto tempo na residência (6 ou 7 matrículas) que no quarto dele já tinha antena para a televisão e tudo.

Conversa ligeira e sem nenhum problema mostraram-me os cantos ao piso e como é que as coisas funcionavam ali. Quais eram as funcionárias fixes e quais eram as parvas e como funcionavam as coisas de noite com os seguranças, importante também disseram-me como se passava para o lado das mulheres na residência, algo que se revelou útil durante alguns tempos.

Depois da tralha arrumada desci e dei com o tal francês na sala comum acompanhado com algumas pessoas. Lembro-me que o grupo era maior mas na lembrança só ficaram quatro. O francês, António, a Ana de Silvares que era de Gestão, e a Inês que era de outra parte da faculdade do IPP.

Nessa noite deitei-me já com um sentimento de pertença, que não estava ali sozinho. Que apesar de desamparado e sem os meus pais... Ali estávamos todos no mesmo barco.

Pouco depois vieram as praxes e com isso todo um mar de gente que sabemos lá de onde vem, pois eles são todos iguais, todos de preto. É engraçado como agora digo que vocês tão todos de branco e são todos iguais.

A primeira vez que me quiseram praxar foi com uma simples granada, mas era de noite. Estava frio e de mau humor e virei-me pó meu Veterano e disse. "E se fores pó caralho e fizeres-la tu?"
Hoje pergunto-me como é que o Hugo se controlou para não se partir a rir, mas na altura, não fazendo puto ideia quem ele era, that shit took some balls. E acho que o que me safou também foi o meu pin de Slipknot e ele curtir tanto da banda quanto eu.

Mas ele não me castigou por isso, em vez disso, fez me ir buscar três imperiais pois estava outro Veterano com ele e começou-me a mostrar que o Traje e a Praxe são símbolos de Força, não de Opressão. Fique com eles a beber a imperial enquanto ele me explicava que não podia responder assim e, again, a explicarem me como as coisas funcionavam. Obrigado Hugo, por seres o primeiro grande Veterano que eu tive.

Passaram-se as praxes e a folia a ela associada, a tão aclamada humilhação que tanto nos querem fazer acreditar. O melhor do primeiro ano são de facto as praxes e as pessoas que lá conhecemos as histórias que ganhámos. Ou querem-me fazer acreditar que eu quando disser a um neto que eu andei quinze dias com a barba feita, e metade por fazer, não será uma daquelas histórias como as que nós ouvíamos dos nossos avós e nos deleitávamos?
Não matem as histórias dos futuros avós por erros de alguns.

Cresci muito durante esse ano, aprendi muito da minha área, muito o agradeço a minha madrinha, Carla, pelas horas perdidas comigo com o Photoshop há nossa frente. Noitadas, noites dormidas no teu sofá e a fazer a vida negra ao peixe no aquário. Aqueles jantares na varanda só porque tava aquele calor infernal do Alentejo.

Os trabalhos feitos no dia anterior, as festanças e saídas. As bebedeiras e as histórias que ganhamos disso. Os meus pais podem dizer que eu na primeira bebedeira que apanhei lhes liguei super contente a dizer que estava cos copos. Juro até hoje que não me recordo de tal situação e negarei tal facto para toda a eternidade ;) As vezes que ficámos afónicos para gritar mais alto que o outro curso.

Estar na faculdade não é só poder estar longe de casa, sair e apanhar bebedeiras como muitos querem fazer crer. É todo um voto de confiança feito também pelos pais, e a isso temos todos que agradecer, estão a pagar para o futuro da nossa vida (em maioria dos casos). É um investimento que pode limpar os fundos a uma casa. Não é o secundário.

Com o passar das matriculas cresci no meio académico. A dada altura estava na comissão, associação de estudantes, conselho psico - pedagógico e ainda era representante do meu curso. Não fui para a Tuna mas com eles bebi copos, apaixonei-me pelas suas baladas e chorei abraçado aos meus irmãos enquanto cantávamos as suas musicas com o maior dos orgulhos.
Tudo isto feito através das pessoas que conheci nas praxes. E da pessoa que me tornei com a instrução deles e como é óbvio, com a ajuda dos meus pais enquanto me criaram e me incutiram o espírito que hoje detenho.

Na comissão fui Veterano, fui besta para quem desrespeitava, fui amigo para quem merecia, e isto não era arbitrário. 
Eu não era um puto prepotente que estava pela primeira vez com um fato.

Eu tinha na altura, o meu melhor amigo, e excelente Veterano, Filipe, que sempre, sempre me ensinou como fazer as coisas da forma correcta. Sem rebaixar ninguém. A ele muito agradeço pelo Veterano que me tornei e ainda hoje sou.

Sempre me ensinaram que temos que respeitar o Traje acima da pessoa que o enverga. Pois Humanos todos somos e como Humanos erramos. O Traje é um símbolo e como todos os símbolos deve ser respeitado e usado com orgulho.

Tive a sorte de estar num meio com Tradição académica. Com bons Veteranos e com bom espírito. Ali aprendi o verdadeiro sentido do que é que se tem que ser enquanto Veterano. Não é só mandar e fazer doutras pessoas gato sapato.

- É dar uma capa/ capote quando o caloiro tem frio, nem que fiques a bater o dente. Porque o caloiro ai tem que vir primeiro.
- É saber brincar com o caloiro sem nunca lhe faltar ao respeito.
- É não comprometer a integridade física ou mental dele.
- É tomar conta daquele cabrão que se embebedou com 2 shots e parece uma autentica torneira enquanto preferias tar a divertir-te.
- É ouvir os desabafos de quem não consegue lidar com a distância de tar longe de casa.
- É cuidar dos teus irmãos de praxe, pois ele são agora a tua família.
- É passar noites em branco a ajudar um caloiro a fazer um trabalho que já fizeste no teu primeiro ano.
- É pagares um copo sem esperares que te paguem de volta.

Ser-se Veterano, é passado anos sem contacto descobrires o numero de uma caloira tua e mandares lhe uma mensagem sem te identificares. E quando ela te pergunta quem és poderes responder, então caloira carrinho de choque? E a pessoa saber quem és. Né Andreina?



 Por motivos de força superior abandonei Portalegre, partindo de volta para Lisboa.



Mal habituado de ser Veterano, dei-me como caloiro uma segunda vez na esperança de ter aquilo pela segunda vez. Não podia estar mais errado.

Aqui não se sabia o que era um Veterano. Para mim eles eram Bichos Trajados. Pessoas que nem chegaram a compreender o que é ser-se caloiro, com um traje nos ombros. Na Lusíada gritavam contigo, tinhas que estar quase sempre em prancha enquanto te atiravam água para cima. Aquilo não eram praxes. Eram putos a brincar ao sabe lá Deus quê que não brincaram quando estavam na idade.
Desisti dessas praxes depois de um dia só, falei com o então Dux e dei-me como Veterano a praxe de Veterano, ás quais fui submetido.

Como aquele espírito não era o espírito que eu queria representar deixei de trajar eventualmente, eu, que todas as quintas vestia o preto. Deixei de acreditar que ali realmente poderia haver um espírito. Pois só se trajava em ocasiões ditas especiais ou para a Praxe. Não sabiam de todo o que era o Espírito Académico.



Anos depois, e por força de relações falhadas comecei-me a dar mais com a inextinguível besta chamada de Bruno Santos e acabei por regressar a um meio académico. A graça aqui era... que eu não era, nem sou da faculdade dele.

Cheguei sem ninguém saber de onde vinha ou porquê e comecei a aparecer recorrentemente, ao ponto de pensarem que era de lá. Sem nunca saberem de que curso era ou ano.
Aos poucos fui chamando àquela faculdade casa e nela era tratado como se de lá fosse.
Foi no Estoril que renasceu o meu espírito académico e a vontade de voltar a vestir o preto. E assim foi, e nas quintas o Traje saiu do armário para voltar a ver a luz do sol.
De capa ou capote ele foi-se mostrando a um mundo que eu pensava extinto. Criei um grupo de amigos, fui Veterano por opção dos meus caloiros. Eles escolheram submeterem-se à minha praxe, não por ter matriculas, mas porque me respeitavam como Veterano.

Aqui uma lição sobre o Traje e sobre o Espírito Académico, não importa de onde vens, mas sim o que vales enquanto pessoa. Se fores um bom Veterano serás visto como tal onde quer que seja.

Excelentíssimo "Ex-Dux" da Lusófona. Pensa que não terias que ser só um líder na faculdade, mas também fora. Ser-se Veterano é saber inspirar e instigar o melhor nos outros. Sê um Veterano com o que se passou no Meco. Não estragues para todos o que não conseguiste ser.

Um ano inteiro passou-se e na ESHTE até um afilhado tive. Ainda hoje não me esqueço do Drop Kick falhado do David Rabaça no Tamariz para me pedir como Padrinho dele por afinidade. São pequenos momentos que ficam para sempre.

Sai e Trajei, diverti-me e chorei. Com um Traje e Espírito Académico forjei grandes amizades com Veteranos e caloiros que ainda hoje perduram e perdurarão.

Com um Traje e Espírito Académico fiz amizades de tal forma, que quando o meu avô faleceu, não precisei de dizer para onde fui. Pois eles sabiam onde eu estaria.
Com um Traje e Espírito Académico, armas de opressão tão aclamadas criam-se laços mais fortes que sangue.

Chegou o Verão e voltei a sentir aquelas saudades das pessoas que tinha apelidado de Família, e ao chegar do segundo ano a acompanhar a ESHTE mais pessoas conheci, e como segundo ano que lá estou, deram-me privilégios de poder brincar com os caloiros como se realmente de lá fosse.

Posso dizer com algum orgulho que muitos me consideram da família académica deles não pela matricula mas pela presença e pela pessoa que sou para eles. E na verdade é isso que conta não?
Ser-se Veterano não se vê através de um numero de aluno, mas sim da capacidade de se poder ser Humano.

Ser-se Veterano, saber ser-se Veterano é saber ser-se um bom Ser Humano, e é aí, que muitos falham. Não sabem ser Seres Humanos que possam inspirar quem nos olhe na procura de uma direcção. Ser-se Veterano é saber repreender uma pessoa quando falha, não quando um caloiro falha.
Ser-se Veterano é saber ouvir quem precisa de nós e saber precisar de outros.
Ser-se Veterano é saber amar o próximo como um irmão.
Ser-se Veterano é saber defender os nossos caloiros com tudo o que temos, pois podemos ser tudo o que eles têm naquele momento.
Ser-se Veterano é saber ver as nossas falhas, e as falhas dos nossos caloiros como nossas, não como derrotas, mas sim como maneiras de nos melhorarmos e de podermos ajudar outras pessoas a melhorarem.
Ser-se Veterano é um pouco como ser pai. Temos que deixar o nosso filho correr e cair para que possa aprender a andar. Mas temos que estar lá sempre que seja preciso levanta-lo e dizer-lhe que é capaz.

Ex-Dux, isto falhou-te, mas eu acredito em ti, e que és capaz de dizer ás famílias dos que estavam contigo e que olhavam para ti com respeito, o que realmente se passou.

Lusófona, eu também acredito em ti, e que verás que o pacto de silêncio não te dignifica, pois faz-vos parecer a Igreja a proteger os pedófilos e isso não vos limpa o nome. Apenas o denigre.



Com a Praxe cresci e com os meus Veteranos tornei-me um Ser Humano melhor. Aprendi ainda mais a lutar pelo que queria e que na vida as coisas nunca me iriam ser dadas sem ter que lutar por elas.
Com o Espírito Académico percebi que sozinho não conseguimos tudo o que queremos, e que por vezes, um amigo, um irmão, é tudo o que precisamos.

Com as Praxes e Espírito Académico tornei-me uma pessoa melhor, é isto que querem retirar ao futuro do Mundo Académico?

1 comentário :

  1. Estou à espera dos resultados da 1 fase para saber se fui aceite na ESHTE, já li tanta coisa de mal em relação às praxes que fiquei com um pouco de medo mas depois do que li no final deste artigo acho que vou experimentar :)

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